Feitiço de Eloim: parte 3

 


O Oráculo da Pálpebra Invertida

I.

Sela a porta de marfim e osso,

Nega ao mundo o tributo do teu olhar.

Onde a luz dos homens desenha o cosmo,

Tu te tornas o ponto onde tudo há de findar.

O primeiro véu caiu. A carne agora é cega.

II.

E o cérebro, em seu ofício antigo e traiçoeiro,

Derramará em ti o rio dos fantasmas.

Ele te ofertará o sonho, o eco, o desfiladeiro

Das imagens nascidas do pó e das memórias gastas.

Ele te acenará com o conforto da imaginação.

Esta é a tua prova, sussurrada no abismo:

Não sonhes.

Não bebas desta água que entorpece.

Onde o fraco se afoga no próprio espejismo,

Tu manterás o olho da águia, que jamais adormece.

Encararás o negrume não como um véu, mas como um rosto.

Fitá-lo-ás até que ele te devolva o olhar.

III.

Então, a escuridão diante de ti tremerá.

O vazio deixará de ser ausência para se tornar Presença.

A cortina de fumaça da mente se dissipará,

E surgirá, límpida e terrível, a tua Sentença:

A Tela Mental.

O espelho de obsidiana onde a Vontade se grava.

A lousa negra onde a serpente do possível desenha o seu rastro.

Nela, não verás o que a memória fabricava.

Verás a engrenagem nua por trás de cada astro.

Verás a corrente antes da maré, a intenção antes do gesto.

Pois saiba, neófito do assombroso:

A imaginação é a jaula dourada do sonhador.

A Tela Mental é a ferramenta de poder do Vidente.

Agora...

Olhe.


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