Pretos Velhos e o Devorador de Feitiço

 


(Para ser lido com calma, como quem ouve um conselho antigo)

Pai José de Aruanda e Pai Bento Benedito: A Força que se Come

(Sente-se o cheiro de café fresco e do fumo de rolo queimando no cachimbo. A fumaça sobe mansa, dançando no ar. Pai José, com seu chapéu de palha e olhar sereno, bafora uma vez antes de falar, enquanto Pai Bento assente com a cabeça, a bengala firme entre as mãos.)

Pai José: Senta aqui, fio. Chega mais perto do nego véio. Ocê perguntou sobre a força, sobre a mandinga que vem dos outros... Nego véio tava aqui pensano nisso, pitano e proseano com o cumpadre Bento.

​Antigamente, quando esse corpo aqui era mais moço e o sangue mais quente, a gente aprendia a desmanchar. Era o certo, tá me entendêno? Vinha um trabalho feito, uma palavra torta carregada de veneno, e a gente firmava o ponto, batia a pemba e pedia licença a Zambi pra cortar, pra desmanchar o feitiço. Era reza forte pra afastar, era banho de arruda pra limpar, era marafo na encruzilhada pra devolver. Era briga boa, briga de força contra força. A gente levantava um muro pra flecha do outro não pegar.

Pai Bento: É isso mesmo, meu cumpadre. Era como a gente apartava briga de galo. Cada um pro seu lado e pronto. A gente era o vento que apagava a vela do outro. E tá certo, é um saber. Mas o tempo, ah... o tempo é um professor teimoso, fio. Ele vai ensinando a gente a olhar pra terra.

​Ocê já viu a terra brigar com esterco? Não briga. A terra não acha o esterco sujo ou fedido. Ela abre os braço, recebe aquilo e fala: "Pode vim". Ela chupa aquela sujeira, aquela quentura, e transforma em adubo. E daquele adubo, nasce a mandioca forte, o milho bonito, a flor que dá gosto de cheirar. A terra não desmancha, fio. A terra come.

Pai José: Aí é que tá o segredo que a idade traz. Hoje, quando a mandinga vem, quando a palavra de maldição chega no ouvido de nego véio, a gente não levanta mais o muro. A gente senta na cadeira, respira fundo e abre a boca da alma. E come o feitiço.

​A gente mastiga aquela raiva, engole aquele Fogo que o outro mandou. O que é veneno, o corpo da gente que já tá curtido no azeite de dendê da vida, a alma cospe fora. Não serve. Mas a força, a energia que o outro gastou pra fazer o mal... ah, essa a gente aproveita. Vira calor pra esquentar os pés nesse frio, vira força pra bengala de Pai Bento ficar mais firme no chão, vira fumaça cheirosa aqui pro cachimbo.

Pai Bento: Deixar de ser o muro que aparta e passar a ser a terra que aduba. Quem te manda o mal, tá te mandando energia, fio. Tá tirando dele e te dando. Se ocê só desmancha, ocê jogou a energia fora. Se ocê come, ocê se fortalece com a força do seu inimigo. Ele fica mais fraco, e ocê fica mais gordo de axé.

Pai José: Então guarde isso no seu coração. Primeiro a gente aprende a se defender. Depois, a gente aprende a se nutrir de tudo. Até do que vem pra derrubar.

​Agora vai, fio. Pega um cadin de café. Que a sabedoria da terra te dê um bom estômago.

Adorei as Almas!

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