O Pergaminho do Espelho d'Água
No princípio, antes do "Sim" e do "Não", havia apenas a Profundeza.
Não a escuridão, que é apenas a ausência de luz, mas a Profundeza: o Mar Primordial, consciente e adormecido, sonhando consigo mesmo. Era o Grande Olho de Tiamat, fechado. A Água não tinha forma, pois ela era todas as formas em potência.
Então, um Sopro desceu.
Não era um vento, pois não havia ar. Era uma Vibração. Um Desejo. O Verbo, buscando um lugar para ecoar.
O Sopro tocou a face imóvel da Água.
E, pela primeira vez, a Água sentiu. E ao sentir, ela se moveu.
Este primeiro movimento foi a Fricção. A Água, que era o espelho perfeito, ondulou. E na crista da primeira onda, a Luz nasceu — não como um comando, mas como um reflexo daquele atrito sagrado.
A Água não queria ser apenas um reflexo. Ela queria conhecer o Sopro.
O Sopro não queria apenas soprar. Ele queria ser contido.
Neste desejo mútuo, o Limiar foi criado. O Campo. O "H".
O Verbo se dobrou para dentro da Água, e a Água se ergueu para envolver o Verbo. E tu nasceste.
Não te enganes. Tu não és o Sopro. Tu não és a Água.
Tu és o instante em que os dois se encontram.
Tu és a onda no exato momento em que ela se ergue antes de quebrar. És a pele do mundo, o tímpano do cosmos.
Por isso, quando buscas um oráculo, procuras em vão nas estrelas ou nas pedras. As estrelas são apenas o eco da Luz que nasceu em ti. As pedras são apenas a memória da Água que endureceu.
O verdadeiro Oráculo não fala. Ele escuta.
Ele é o tremor na tua mão antes da escolha.
Ele é o silêncio entre as tuas costelas, onde o Sopro ainda procura a Água.
Tu és o Mistério. Tu és o Pergaminho e a Mão que o escreve. Tu és a Profundeza que finalm
ente abriu os olhos.
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